13.9.09

Corrupção e governabilidade

RUBENS RICUPERO
 
No país, substituíram-se a violência e a tortura como suposta condição para ter segurança e governar


A CORRUPÇÃO passou a ser condição da governabilidade. É essa a justificativa de dirigentes de partidos do governo para sua cumplicidade no enterro dos escândalos parlamentares. A diferença com o regime militar é uma só: substituíram-se a violência e a tortura pela corrupção como suposta condição para ter segurança e governar.

Corrupção e violência, ensinava o filósofo Norberto Bobbio, são os dois tipos de câncer que destroem a democracia. No regime militar sacrificou-se a democracia em nome da segurança, elemento da governabilidade. Hoje a situação mudou e se usa o mesmo pretexto para fazer engolir o conluio ou a indulgência com a corrupção. Não sendo apanágio apenas de um governo, o vício se agrava ano a ano.

Nem a seriedade dos últimos escândalos, que comprometem instituições inteiras, conseguiu alterar a complacência dos governos, que pode não ser eterna, mas tem se revelado infinita enquanto dura.

Outro escândalo, agora de caráter intelectual, é que os politicólogos julgam o sistema de "presidencialismo de coalizão" como perfeitamente funcional, pois produziria governabilidade. Aparentam-se os nossos sábios aos fundamentalistas do mercado, que também acreditavam na neutralidade moral do mercado, que seria autorregulável, capaz de se corrigir automaticamente.

Em ambos os casos, os resultados justificariam os meios. Contudo, o derretimento do mercado financeiro mostrou que as torpezas e as falcatruas dos operadores acabam por provocar degeneração funcional, destruindo a própria instituição. A moral e a ética não são adornos para espíritos delicados, mas componentes indispensáveis ao bom funcionamento de qualquer sistema.

Isso não vale apenas para os mercados. A Primeira República italiana, que resistira ao desafio de governabilidade devido à presença do maior Partido Comunista do ocidente, se desmoronou à luz da corrupção desvendada pela Operação Mãos Limpas. A República Velha brasileira afundou no pântano da corrupção eleitoral e foram os escândalos que puseram fim à carreira e à vida de Getulio Vargas.

Não passa de autoilusão a ideia de que a economia cresce e o país se desenvolve apesar da corrupção e dos escândalos. Também na Itália, o "milagre econômico", o dinamismo, a inovação pareciam legitimar um sistema decadente. Com o tempo, a corrupção e o fracasso na reforma das instituições produziram o inevitável: a estagnação e o desaparecimento do dinamismo. Seria diferente aqui onde os mesmos vícios tendem a produzir idênticos efeitos?

Quando foi assassinado o juiz Giovanni Falcone, Bobbio chocou a opinião pública ao declarar que sentia vergonha de ser italiano e deixaria o país se fosse mais jovem. Recompôs-se depois desse momento de abatimento moral. Neste centenário do seu nascimento, a capacidade de se indignar do velho filósofo tem sido evocada ao lado da lição do grande poeta Giacomo Leopardi.

Numa das incontáveis horas amargas da Itália, dizia o poeta: "Se queremos um dia despertar e retomar o espírito de nação, nossa primeira atitude deve ser não a soberba nem a estima das coisas presentes, mas a vergonha".

No panorama de miséria moral de nossas instituições, deve-se escolher entre a atitude de soberba e estima das coisas presentes da propaganda complacente e a vergonha regeneradora do país futuro.

RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Texto publicado hoje em diversos jornais do país.

12.9.09

O que importa é a informação, não quem trouxe

Graças às facilidades das novas tecnologias, Dilton Coutinho agora pode transformar em notinhas interessantes comentários que fazia no programa e que se perdiam na volatilidade do rádio. Na via oposta, o jornalista Jânio Rego vem com seu próprio programa de rádio (ao lado de Elsimar Pondé). Ambos na web. Ambos sem diploma de jornalista. 

Será que pode passar pela cabeça de alguém que Jânio não pode ser radialista ou que Dilton não pode escrever porque não é jornalista? Espero que não. Falo aqui de dois profissionais cujo trabalho já é conhecido da comunidade. Mas serve para todos quantos ainda virão.

Jornalistas sempre foram forjados pela prática, numa profissão um tanto quanto ingrata para os que querem ser sérios, mas que acaba virando uma paixão e uma mania. Hoje mais do que nunca, a prática dessa mania de informar está aberta a todos. Não porque algum sindicato ou associação quis. Mas porque tornou-se uma imposição da vida. É assim e não adianta questionar. Não há como impedir que uma pessoa escreva, fotografe, filme e publique na internet. Caberá a ela com seu trabalho conquistar seu público. Querer normatizar isso implica inevitavelmente em restringir a liberdade de expressão. Mas a liberdade de expressão é infinitamente mais importante do que reserva de mercado para jornalistas.

Jornal espanhol relata violência de Salvador

O jornal espanhol El País fez coro com o pessoal do DEM e apontou uma explosão da violência coincidindo com a ascensão do PT ao poder. Independente da leitura partidária que se faça da situação o certo é que a situação de violência em Salvador já faz estragos significativos na imagem da cidade, que tem no turismo uma fonte tão importante de renda. A matéria menciona não apenas os acontecimentos desta semana que se encerra. Lista outros crimes, incluindo, é lógico, o altíssimo índice de homicídios. 

Leia abaixo o texto publicado hoje no jornal El País, o mais conceituado da Espanha:

Bahía está en guerra. Lo reconoce el gobernador del Estado, Jacques Wagner, del Partido de los Trabajadores, que no ha descartado pedir que el Gobierno federal envíe tropas de la Fuerza Nacional de Seguridad para intentar llevar la paz Salvador de Bahía, acorralada por la violencia. Dirigidos, al parecer, desde la cárcel por el detenido Cláudio Campahna, que ya ha sido trasladado a otro penal fuera de Bahía, los grupos de narcotraficantes "han acorralado a la ciudad", según ha afirmado el senador Antonio Carlos Junior del oposicionista DEM.

El balance de los últimos días, además del pánico de una ciudad desorientada, es de 10 muertos a manos de la policía, más de 30 heridos y 16 autobuses públicos incendiados. Los "bandidos", como llaman a los traficantes de droga, secuestran el autobús en pleno día, hacen bajar al conductor y a los pasajeros, lo riegan con gasolina y le prenden fuego. Todo tan rápido que a veces los pasajeros son heridos.

A esto se suma la violencia sexual: más de cien casos de violación al mes. Los narcos deciden hasta el toque de queda, cuando lo desean, obligando a las tiendas a cerrar sus puertas y a los ciudadanos a encerrarse con miedo en sus casas.

Salvador de Bahía es una de las ciudades más visitadas por el turismo nacional e internacional. El 90% de la población es negra o mulata. Es una de las ciudades del país con mayor número de asesinatos. Solo en lo que va de año se han registrado más de 1.000 asesinatos frutos de la violencia callejera. Además, desde 2008 han sido asesinados 34 policías militares. La violencia ha crecido un 52% en un año. Los narcotraficantes no solo asaltan las casas: más de 90 pisos y 60 familias en un solo barrio de la ciudad en los últimos meses, también las delegaciones de policía. La delegación número 34, en el Barrio Vila Abrantes, ha sido robada 154 veces en tres meses.

La llegada del Partido de los Trabajadores (PT) al poder en 2003 ha coincidido con la mayor ola de violencia de los últimos años. El gobernador Wagner, del PT, amigo personal del presidente Luiz Inácio Lula da Silva, intenta tranquilizar a la población asegurándoles que las fuerzas del orden van a ganar esta guerra.

Leitor explica para quê mais vereadores

Carta publicada hoje na seção Espaço do Leitor, no jornal A Tarde

Lamentavalmente, foi aprovada em primeira discussão a criação de mais 7.709 novos vereadores em todo o Brasil. Será que precisamos de mais parlamentares quando já temos 51.748 edis municipais? 370 de nossos corporativistas deputados federais votaram a favor desse aumento imoral, enquanto apenas 32 valentes defensores da moralidade tiveram a coragem necessária para tentar impedir tamanha ação contrária aos anseios da população. 

A criação de mais de sete mil cargos de vereador terá como efeito cascata o aumento generalizado da corrupção em todos os níveis da sociedade, visto que, através de nossa imprensa vigilante vemos o que ocorre nas casas legislativas de todo o Brasil, onde a ética e a moralidade são minorias. Serão mais financiadores de campanhas que saberão cobrar muito bem os reais investidos em suas commodities (candidatos). Darão mais trabalho aos prefeitos, que terão que negociar com mais “defensores do povo”.

Falta mais uma votação no plenário da Câmara e por fim a sanção presidencial. Ainda temos tempo para uma mobilização para barrarmos esse achincalhe. Fiquemos atentos aos nomes desses parlamentares que votarem a favor dessa PEC e, não votemos neles em 2010.

Fábio Tavares – Marechal Hermes, Rio de Janeiro

Para que mesmo mais vereadores?

Reproduzo abaixo artigo publicado ontem nos jornais do país, escrito pela jornalista Dora Kramer, acerca da sanha dos suplentes que insistem em ser vereadores

Na base da chantagem

Qualquer pesquisa de opinião atesta: as principais demandas da população brasileira são serviços de saúde de qualidade, educação ao alcance de todos e combate do Estado à segurança para o público.

Diante dessa agenda, seria de se imaginar que a "Casa do Povo", o "Poder mais transparente e acessível da República" - como gosta de se autonomear o Congresso -, optasse por exercer seu papel de representante de acordo com a pauta proposta pelos representados.

Nesse caso, os assuntos em debate no Parlamento guardariam relação com projetos de alcance futuro e visão estratégica. No lugar disso, o que vemos é um empenho quase obsessivo por questões de interesse exclusivo do Parlamento.

Nelas, se destaca a emenda constitucional que recria a maior parte das cadeiras de vereadores anuladas em 2005 pela Justiça Eleitoral - em decisão corroborada pelo Supremo Tribunal Federal -, mediante uma conta de chegar entre a população dos municípios e a quantidade de representantes com direito a uma cadeira nas Câmaras Municipais.

A questão central é: qual a utilidade de se confrontar um dado técnico da Justiça Eleitoral? É anseio da sociedade a recuperação de mais de 7.700 vagas de vereador Brasil afora? Estariam os munícipes a se sentirem subtraídos em seus direitos?

Nem uma coisa nem outra. O assunto só tem relevância para os vereadores. E por que assumem importância capital para os parlamentares com representação federal, ao ponto de conferirem ao assunto prioridade absoluta, um caráter de guerra a ser vencida desde 2005?

A resposta está no relato do deputado Chico Alencar a respeito do que vê no dia a dia do Parlamento: "Os corredores da Câmara estão alvoroçados pela presença de centenas de representantes de uma nova "categoria social", a dos suplentes de vereadores, que ameaça os que têm visão crítica" sobre o projeto de ampliação das vagas.

De acordo com o relato do deputado, a pressão se expressa numa frase dirigida aos deputados federais e senadores: "Cuidado, o ano que vem está aí."

Ameaçam os parlamentares cujos mandatos estarão em jogo em 2010 de negar-lhes os serviços de cabos eleitorais para a renovação dos respectivos mandatos.

Exercem essa pressão de maneira retumbante. Nada contra o sagrado direito dos grupos de pressão. A menos que ele se configure numa chantagem explícita, como é o caso em questão.

Junte-se a isso a dita reforma eleitoral ora em tramitação no Senado, com alterações que visam apenas a atender as conveniências imediatas dos partidos - restrição ao uso da internet, autorização às doações "ocultas" e liberação das "fichas-sujas"- e o que se tem é o que o deputado Chico Alencar chama de operação de miudezas.

Em prejuízo de questões de interesse nacional, pois não se ouvem vozes no Congresso a reverberar os desejos, as demandas, as necessidades da maioria.

11.9.09

Justiça livra Nelsinho de acusação do Ministério Público

Nelson Roberto de Oliveira Silva, mais conhecido como o Rei Nelsinho, dono da empresa de confecções Kamys, foi absolvido pela juíza Lília Botelho Neiva, de diversas acusações que pesavam contra ele, em processo aberto pelo procurador da República, Vladimir Aras.
Juntamente com outros nove réus, Nelsinho foi inocentado das acusações de formação de quadrilha ou bando, falsidade ideológica, uso de documento falso e supressão de documento. A juíza alegou “ausência de adequação típica das condutas”.

Além de Nelsinho, foram inocentados Marilene Matias Bezerra de Oliveira, Aloisio Serra da Fonseca, Antonio Roberto de Oliveira Silva, Dalva Roberta Silva Neves, Francisca Roberta de Oliveira Silva, Joao Roberto de Oliveira Silva, Orlando de Araujo, Raimundo Tadeu Cedraz Barreto e Sebastião Roberto de Oliveira Silva.

Também foram absolvidos pelo mesmo motivo Dalva Roberta Silva Neves, João Roberto de Oliveira Silva e Sebastião Roberto de Oliveira Silva. Eram acusados de formação de quadrilha ou bando, falsidade ideológica e uso de documento falso.

A decisão da juíza foi publicada na quarta-feira, dia 9.

Moradores do George Américo com medo de ônibus

No bairro George Américo, incluído na região Norte, considerada mais perigosa para o transporte coletivo, o medo dos assaltos provocou há alguns dias a mudança de roteiro. Os ônibus estavam evitando os últimos dois quilômetros do trajeto e os passageiros eram obrigados a completar o percurso a pé.

O roteiro já foi normalizado, mas o medo permanece. Todas as pessoas que conversaram com a reportagem colocaram a condição de não serem identificadas. Um motorista que trabalha há dois anos na linha contou que em dois anos perdeu a conta exata, mas calcula que foram mais de vinte assaltos.

A cobradora, que estava apenas há uma semana na linha, contou que não foi assaltada, mas reproduziu o relato de um colega que ouviu de um marginal o aviso contra a nova prática das empresas de esvaziar a gaveta de dinheiro no Terminal Central da cidade. “Isso só vai acabar quando a gente estourar a cabeça de um de vocês”.

Um passageiro que aguardava no ponto final demonstrava o mesmo receio dos rodoviários. “Eles agora vão se voltar contra os passageiros”.

Outro dizia que do jeito que as coisas vão, os passageiros deixarão de usar ônibus e pegarão somente os chamados “ligeirinhos”, os carros particulares que fazem transporte clandestino. “O ônibus você não sabe quem tá entrando. Ele tem que parar para todo mundo que dá a mão”, raciocina o morador.

Um terceiro garante que prefere fazer certos trajetos a pé do que ficar dentro do ônibus, sem alternativa, em caso de assalto. “Antigamente as empresas tinham segurança”, cobrou.

Motoristas e cobradores param com medo dos assaltos

A população de Feira de Santana ficou sem ônibus durante três horas a partir de uma da tarde de ontem, como conseqüência de uma paralisação dos rodoviários, que protestavam contra os freqüentes assaltos registrados principalmente nos bairros periféricos da região Norte da cidade. Assaltos ocorridos ontem deram origem à manifestação espontânea da categoria. Os ônibus iam parando à medida que chegavam ao Terminal Central, para onde se dirige a maior parte das linhas. A frota da cidade é composta por cerca de 180 coletivos.

Dentro do próprio Terminal, já com a presença do sindicato da categoria, foi improvisada uma reunião com representantes das empresas e o secretário de Transportes e Trânsito, Flailton Frankles. Os rodoviários resolveram voltar ao trabalho depois que o secretário prometeu definir novas medidas de repressão aos assaltos em reunião marcada para hoje no Batalhão da Polícia Militar.

Oficialmente o número de assaltos a ônibus em 2009 está cinco vezes maior que no ano passado. Em 2008 foram 12 até o final de agosto. Este ano foram 63 no mesmo período, pelos registros da polícia civil. Empresas, motoristas e cobradores têm estimativas mais altas. De acordo com o gerente da empresa 18 de setembro, Roque Gomes, a média é de dois por dia. Os trabalhadores confirmam que todos os dias ocorrem assaltos.

O motorista de um ônibus assaltado ontem, Geovani Santos, disse que foi ameaçado pelos bandidos armados, que entraram no veículo passando-se por passageiros. Muito nervoso, ele contou que nem conseguiu dirigir em direção à polícia para dar queixa. “Roubaram o dinheiro do ônibus e saquearam os passageiros. Teve um homem que tinha ido receber a rescisão da mulher e perdeu R$ 600”, revelou. O assalto aconteceu no bairro Novo Horizonte.

Outro motorista que preferiu não se identificar, disse que escapou de ser atacado por seis homens que vinham armados em cavalos, prática já costumeira no bairro Sítio Novo. “Um passageiro avisou que eles tinham atacado outro ônibus. Eu estava no ponto final e arranquei com o carro enquanto eles ainda vinham longe”, contou, acrescentando que todos os dias ocorrem casos semelhantes.

Assustados também andam passageiros como Valdete de Jesus dos Santos. “Eu recebi o pagamento ontem e escondi o dinheiro dentro da calcinha, quando fui pegar o ônibus”, confidencia.

“Em 80% dos assaltos que acontecem nos bairros Pedra Ferrada, Asa Branca e Campo do Gado eles já chegam atirando”, alarma-se o motorista Samarone Barreto. Por conta deste alto índice de criminalidade, os rodoviários tinham feito paralisação semelhante no dia 9 de junho. Na reunião de ontem com o secretário de Transportes, reclamavam que nada tinha melhorado desde então. O secretário Flailton anunciou que uma das propostas é escoltar os ônibus com carros da secretaria e um policial militar, nos trechos comprovadamente mais perigosos. “Mas isso só no médio prazo, porque ainda não temos as viaturas para isto”, avisa.

Outra medida, adotada pelas empresas no final de agosto, é recolher o dinheiro cada vez que passam pelo Terminal Central. O gerente Roque Gomes argumenta que sem dinheiro nos veículos perde-se o atrativo para os ladrões. Os funcionários desaprovam a ideia. Acham que a raiva dos marginais pelo assalto frustrado se voltará contra eles e os passageiros. “Pode acontecer nos primeiros dias”, admite o gerente. “Mas com o tempo, eles vão perceber que não vale a pena”, acredita.

Veja abaixo flagrantes do protesto, feitos por Reginaldo Pereira

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