18.9.06

Todos pela educação

A Bahia tem um dos piores desempenhos nacionais na área do ensino fundamental, de acordo com a medição feita em todo o país pelo MEC, através da Prova Brasil. Piores que a Bahia, somente cinco outros estados do Nordeste.
O trágico é que a Bahia está entre os últimos estados do Brasil, que é um dos últimos países do mundo em educação, de acordo com exame internacional realizado em 40 nações (PISA). Em resumo, alunos de 8ª série têm conhecimento equivalente à 4ª e os de 4ª sabem nada, nem ler.
Em Feira de Santana, o desastre é o mesmo, com o agravante de que as escolas municipais obtiveram resultados um pouco piores que as estaduais (os resultados, escola por escola, estão na edição de lançamento da revista Atual, que está nas bancas da cidade).
Por que chegamos tão fundo neste poço de ignorância? Com certeza, uma das razões é que nunca se deu prioridade à educação. O Brasil se propôs a erradicar a poliomielite das crianças e conseguiu. A Bahia se propôs a erradicar a febre aftosa do gado e conseguiu. O Brasil se propôs a fazer aviões e conseguiu. Se propôs a explorar petróleo e em 53 anos saiu do zero para a quase auto-suficiência (não é verdade que deixamos de comprar petróleo, como o governo federal quer nos fazer pensar).
Na educação, foram estabelecidas apenas duas grandes metas para inglês ver: colocar todas as crianças na escola e tirar as crianças do trabalho para as salas de aula (embora o trabalho infantil ainda seja muito presente, mesmo com o PETI). Mas esta escola que temos está servindo mais como abrigo de menores. Em matéria de aprendizado, nada.
Feira de Santana mesma pode ser um caso exemplar de como a educação está no fim da fila das prioridades. Sob o comando do prefeito José Ronaldo, que está perto da metade do segundo mandato, aumentou-se a arrecadação, recuperou-se a capacidade de investimento do município, abriram-se avenidas, foi feita muita pavimentação, reabertos postos de saúde, implantados serviços que não havia, como SAMU. Foram atraídos empreendimentos industriais importantes e recuperou-se força e prestígio para os grandes eventos anuais (Micareta, São João e Expofeira).
Mas a educação é uma ruína que nem a reforma de algumas escolas ou o esforço de educadores comprometidos com o trabalho consegue esconder. E por quê? Também porque a sociedade não cobra e não se importa. As pessoas não cobram educação como cobram saúde, transporte, segurança e emprego. E a política, todos sabemos, é movida fundamentalmente pela pressão. Sob pressão cassam-se mandatos, demitem-se amigos, faz-se reforma agrária, legalizam-se vans e motoboys. Sem pressão, deixa-se como está, para ver como é que fica.
Oxalá consiga a iniciativa dos maiores empresários do país (www.todospelaeducacao.org.br), lançada no último dia 6, alcançar o objetivo de transformar a educação em obsessão nacional, muito mais que futebol e Copa do Mundo. Não existe outra forma de sairmos do atoleiro em que nos metemos há décadas.

Publicado na Tribuna Feirense em 16/09/06

11.9.06

Direito pela metade

Pareceu salutar que a Justiça tenha dito à Caixa Econômica Federal que deve cumprir a lei dos 15 minutos. A mim não pareceu, a partir do momento em que se concedeu ao banco estatal o privilégio de descumprir esta obrigação, quando se trata das pessoas que vão às agências em busca de atendimento para os demais serviços exclusivos do banco público, tais como saque de FGTS, seguro-desemprego e outros.
A Caixa é obrigada a receber esta massa de trabalhadores que superlota suas filas e guichês. Mas certamente não está fazendo favor e lucra com esta exclusividade. Muitos outros bancos gostariam de repartir com ela este peso. A vítima, digo, o cidadão que vai ao banco, este sim não teve direito de escolha. Ele é obrigado a ir à Caixa porque não lhe deram a opção de ir a outro lugar.
No entanto, se a Caixa tiver que cumprir os 15 minutos apenas para os correntistas, sob pena de pagamento de multa, poderá relegar (mais do que já faz) a segundo plano estes tantos trabalhadores que recorrerão a ela por falta de opção. E tudo isso por quê? Porque não se trata de uma relação de consumo. Ou seja, como o trabalhador não é correntista, não é cliente, a Caixa não tem obrigações com ele.
Eis que estamos num contexto em que o respeito à dignidade das pessoas não existe. Só tem valor o consumidor. E isso numa sociedade empobrecida em que milhões ainda não atingiram este estágio da evolução humana que é ser um consumidor.
O cidadão não vale nada e não merece ser beneficiado pela regra dos 15 minutos, regra que veio bem a calhar para colocar um mínimo de decência na relação das pessoas com os bancos, neste país em que as empresas do setor financeiro dão as cartas.
Essa exacerbação do valor comercial das coisas faz lembrar a abordagem freqüente da questão do deficiente como alguém que "é tão produtivo quanto qualquer outro trabalhador". Como se o deficiente só fosse digno de consideração por ser capaz de produzir. Ora, reforçar esta visão é condenar a uma vida de eterna indignidade os que não são capazes de produzir, pois muitos efetivamente não são, devido à gravidade de sua deficiência. Se o deficiente pode produzir, trabalhando numa empresa, ótimo. Ele mesmo se sentirá muito melhor, integrado ao sistema que o cerca. Mas se não for, uma sociedade decente precisa prover os meios para que ele tenha uma vida digna, com respeito aos direitos que todo ser humano tem, independente de ser ou não produtivo no sentido capitalista do termo.

"O" ELEITOR

Cada eleitor tem direito a dar um voto. Neste sentido o prefeito José Ronaldo é igual ao José da Silva Lima, um anônimo que compareça diante da urna na mais remota seção de distrito. Porém nesta eleição, o voto de José Ronaldo está tendo o peso multiplicado. Seu apoio é disputado pelos principais candidatos do grupo político. Uns, como Rodolpho Tourinho, porque precisam desesperadamente de ajuda para subir a ladeira. Outros, porque querem mostrar que são mais amigos de Ronaldo do que o colega ao lado (alguns visando o lugar de honra no palanque de 2008, quando Ronaldo não poderá mais se reeleger).
Na propaganda que nos cerca com intensidade cada vez maior à medida que nos aproximamos do pleito, Jairo, Fabinho, Geilson e Eliana, todos são "candidatos de José Ronaldo". Tarcízio Pimenta, que até outro dia fazia bico para o prefeito, colocou uma mensagem em circulação nos seus carros de som onde dirige um "agradecimento especial pelo empenho de Ronaldo à continuidade de sua luta na Assembléia Legislativa". E até na propaganda de Paulo Souto, que não precisa, lá está Ronaldo a testemunhar.
Como se vê, mesmo sem ser candidato, Ronaldo está cotadíssimo nestas eleições.

2.9.06

Para o senado, ACM

Vote em quem você quiser entre os principais candidatos ao Senado e estará levando um pouquinho mais de ACM a Brasília. Nem todos gostam de ser lembrados disso, mas todos são crias do mesmo. João Durval é o que há mais tempo deixou o grupo, mas foi como carlista que chegou ao governo do estado e angariou, por méritos próprios, vale dizer, o prestígio de que ainda desfruta e que o faz um dos favoritos ao Senado. Tanto identifica-se com os antigos companheiros que chegou-se a especular sobre uma possível aliança com o PFL, conversas que deram em nada depois que o TSE decidiu moralizar um pouquinho a disputa, mantendo a verticalização.
Imbassahy, tucano novo, é o que tem a situação mais difícil de conciliar em matéria de coerência; e conseqüentemente a maneira mais envergonhada de lidar com sua herança pefelista. Quer ser ao mesmo tempo uma opção para oposicionistas, sem perder seus votos carlistas. Apresenta-se como "senador de toda a Bahia" e "novo senador da Bahia", numa tentativa de transformar em vantagem a própria falta de identidade. A confusão é tamanha que vai ainda mais longe, pois em sua propaganda no rádio disse que vai estar "ao lado do presidente", reivindicando em favor da Bahia. Deve estar fazendo confusão porque PFL e PSDB, embora aliados a nível nacional, são inimigos na Bahia. Terá deduzido que sendo assim, o PSDB em Brasília está com o PT. Precisa ser avisado que seu parceiro no PSDB baiano, Jutahy Júnior, é um dos mais implacáveis críticos do governo Lula.
Mas na eleição o candidato carlista mesmo é Rodolfo Tourinho. Perdão, Rodolpho Tourinho. Também não me cobrem um conhecimento profundo sobre o homem, pois até em sua página oficial de senador na internet se pode encontrar o nome grafado das duas formas. Não sou o único que não conhece o Tourinho. O sobrenome até que é razoavelmente popular na Bahia. Talvez fosse o caso do seu pessoal de marketing trabalhar o sobrenome, fazendo o contrário do que fizeram os marketeiros do Alckmin, o Geraldo. Muitos feirenses, por exemplo, fazendo confusão, poderiam votar no Rodolpho pensando se tratar do vereador Roberto Tourinho, certamente mais conhecido por estas bandas, embora de oposição ao PFL (se bem que já foi aliado também em outros tempos). Em Salvador, fez fama Arx Tourinho, destacado advogado, falecido em janeiro do ano passado, que presidiu a OAB e era da cota dos desafetos de ACM. Se seu sobrenome ajudasse a empurrar o pesado candidato, tanto melhor. Seria até uma espécie de vingança para o cabeça branca depois dos aborrecimentos que passou nos embates com o destemido jurista.
Afinal, apesar de seus ex-pupilos Durval e Imbassahy estarem perto da eleição, para ACM não é vantagem alguma, pois desta vez ele queria é o Rodolpho. A vitória de Rodolpho poderia ser a desmoralização da urna eletrônica, pois é difícil acreditar em suas chances de reabilitação nesta campanha. A derrota será a desmoralização da teoria de que "ACM elege até um poste". A tese já foi abalada pela vexatória derrota de César Borges na eleição para a Prefeitura de Salvador em 2004. Tratava-se na ocasião de um candidato que tinha sido governador, ou seja, ao contrário do senador Tourinho, amplamente conhecido. Mesmo assim, por muito pouco não ficou em terceiro, atrás do petista Pellegrino. Agora, o previsível fracasso do candidato pefelista abalaria definitivamente a fama de invencível do líder do carlismo, embora seja conveniente inclusive para os que, dentro do próprio PFL, querem ver ACM perder força.
Aliás, fora uns muros pintados na véspera da carreata para dar satisfação ao candidato e seu padrinho, onde está a campanha de Rodolpho Tourinho em Feira, o segundo mais importante colégio eleitoral do estado?

Publicado em 02/09/06 na Tribuna Feirense

26.8.06

Pontos estratégicos

Em televisão existe uma coisa que se chama Nota-pé, que vem encerrando, como fechamento de um assunto que estava sendo tratado em reportagem anterior. Por exemplo: "Tentamos falar com o deputado acusado de integrar a quadrilha das sanguessugas, mas ele não foi encontrado". Em boa parte das vezes a Nota pé é lida com um misto de ironia e desilusão, pois serve para dar satisfação ao telespectador, ao mesmo tempo em que informa, porém com outras palavras, que uma determinada autoridade não estava fazendo a parte que lhe cabia.
Assim foi esta semana, depois que o telejornal da TV Subaé noticiou o acidente com uma van do transporte alternativo no Novo Horizonte, em que mais de uma dezena de pessoas ficou ferida, pois o veículo superlotado capotou depois de bater numa mobilete. Pode-se dizer – ainda que seja um tanto macabro – que foi sorte termos um único morto (e que por sinal não estava na van). Então a Nota-pé informou que o funcionário responsável na secretaria de transportes, questionado sobre a superlotação, disse que os fiscais estão diariamente nas ruas em pontos estratégicos fazendo a fiscalização.
Foi com espanto que ouvi esta explicação. Seria importante saber que penalidades são aplicadas e se de fato são cumpridas. Onde moro talvez não seja um ponto estratégico. Porque todo santo dia estão lá as vans superlotadas, vindas da zona rural. Tem gente "sentada" no vidro das janelas (bunda no vidro, ombros e cabeça no teto). Nenhuma providência é adotada. Possivelmente não passou por lá nenhum fiscal. Mas talvez eu esteja morando longe. É razoável supor que um "ponto estratégico" seja o centro da cidade. Por exemplo, ali em frente ao jardim adotado pelo J. Santos na avenida Getúlio Vargas existe um ponto de transporte coletivo dos mais movimentados da cidade. Se algum fiscal andar por lá vai ter dificuldade em encontrar alguma van que não passe superlotada.
Mas peraí. Pode estar havendo uma confusão de conceitos sobre o que seriam os "pontos estratégicos", claro. Ponto estratégico pode bem ser um lugar onde não passa van nenhuma. Onde não haja transporte nem alternativo. Num lugar assim, não existem vans superlotadas. Deve ser lá, estrategicamente, que se encontram os fiscais.

Comercial eleitoral

No rádio, ouve-se uma voz apregoar as virtudes do Partido do Remédio Barato. É horário comercial, não horário eleitoral. O propagandista fala que o partido já fez muito pelo povo e vai continuar fazendo, se você ajudar. O falante não se identifica, mas a voz parece muito com a de João Borges, aspirante a deputado federal.
Mas não pode ser, João Borges é candidato, como pode aparecer fazendo propaganda de sua empresa, se ele saiu dos comerciais (junto com a Mamãe) justamente quando homologou sua candidatura? Seria uma exposição maciça e possivelmente irregular de sua imagem, passível de ser enquadrada como abuso de poder econômico. Então na TV desfaz-se o mistério. A propaganda é com João Borges, mas um da segunda geração. Em geral, atores de comerciais não são identificados. Mas neste caso, lá está o nome creditado, como um apresentador de TV: JOÃO BORGES FILHO.
Assim, espertamente, o candidato pai dá um jeito de driblar as restrições legais e aumentar a exposição de seu nome, ainda insinuando sutilmente na propaganda que se você votar em João Borges o remédio barato seguirá firme e forte.
Ainda que disfarçada, é propaganda eleitoral. Mas parece que os outros candidatos não se importam, pois não questionam.

Publicado na Tribuna Feirense em 26/08/06

19.8.06

O novo Lula é o velho Lula

Dizem, com razão, que o Lula da eleição de 2002 foi obra de Duda Mendonça. Que o marketeiro apagou do mapa a imagem de homem do povo, deu-lhe um banho de loja, um ar grave, para aparentar preparo, maturidade e competência. Lembra do tempo em que se ouvia dizer “eu não voto nesse Lula, que é um ignorante analfabeto despreparado”? Isso desapareceu.
O Lula de Duda Mendonça estava muito mais para empresário que operário. E de repente, em 2006, com Duda expurgado da campanha, o mundo gira e Lula volta para o mesmo lugar de onde saiu. Ele agora é homem do povo, “a cara do Brasil”, como diz sua propaganda.
Em propaganda de candidato grande, nada é por acaso e tudo se faz com base no que dizem as pesquisas. Se em 2002 convinha repaginar o Lula, em 2006 é preciso que as pessoas pensem nele como um amigo ou parente próximo. É que mudou o público-alvo, como diriam os publicitários.
Em 2002, Lula tinha que ter cara de empresário porque precisava do voto da classe média pra cima. Hoje ele se equilibra no topo das intenções de voto graças aos clientes do Bolsa Família. O negócio agora é ser da família do Lula (São milhões de Lulas povoando o Brasil, diz o jingle oficial da campanha).
Nesse ponto o marketing não poderia ser mais acertado. Lula é mesmo a cara do Brasil quando dá um jeitinho de desculpar os companheiros que andaram pisando na bola e até “traindo sua confiança”. Quando demonstra enorme dificuldade em dispensar os amigos que aprontaram. Quando age como se as regras valessem apenas para os desafetos, mas não para os amigos. Quando se finge de santo ingênuo, que não sabia de nada.
Lula tanto é a cara do Brasil que nem nome usa, mas apelido. Já seu adversário é a cara de São Paulo, tanto que não usava o nome, mas sim o sobrenome, como se faz no sisudo Primeiro Mundo, organizado e desenvolvido.
Finalmente os marketeiros do PSDB descobriram que o tucano disputa eleição no Brasil e não em São Paulo e apagaram o Alckmin, fazendo surgir o Geraldo. Prejuízo não vai ter, já que ninguém sabia mesmo quem era o Alckmin (eu mesmo que trabalho com isso, para saber como se escrevia o nome – que tem apenas uma letra I – tive que consultar o site oficial).
Muito dura a vida do tucano. Tem que bater na porta da casa das pessoas com aquela cara de vendedor de enciclopédia. A dona da casa abre, mas atende ali na porta mesmo, não deixa entrar. Dentro, ouve-se um burburinho, umas gargalhadas de gente meio alta de algumas doses a mais. Geraldo ouve uma voz rouca e uns erros de concordância familiares. Como é comprido, espicha o pescoço, dá uma olhada pra dentro e lá está o Lula, sentado na mesa, em altos papos com o outro Lula dono da casa. Assim fica difícil.

Publicado na Tribuna Feirense em 19/08/06

13.8.06

Idéias e conceitos em Segurança Pública

Os conceitos e idéias não são minhas. Apenas destaco o que de mais incrível foi dito pelas autoridades máximas da área na Bahia, de passagem por Feira de Santana, em entrevistas nesta semana que acaba hoje. Pelo conteúdo de suas declarações, é de se imaginar que nossas autoridades estejam atordoadas com a escalada de violência que os pegou de surpresa.
a) Sobram policiais em Feira de Santana. Feira tem policiais demais, pelo que declarou o secretário de Segurança Pública, general Edson de Sá Rocha. Veja, palavra por palavra, o que ele disse em entrevista coletiva a emissoras de rádio: Isso eu já detectei há muito tempo e estamos trabalhando em cima de fazer uma distribuição mais eqüitativa. O problema é que eu vou tirar policiamento de Feira de Santana agora? Agora não tem condições de tirar. Então nós temos que formar mais policiais, e isso é uma determinação do governador para poder buscar o equilíbrio sem desfazer a estrutura que está aí montada. Ou seja, se não fosse o momento de intranqüilidade que se vive neste 2006, já poderíamos ter despachado parte do efetivo que atua aqui para outras cidades que não têm a sorte de contar com um poderoso aparato policial, como a nossa.
b) Falta de viatura ou gasolina é relativo. Pouco depois de admitir que há 20 anos o patrulhamento militar em Feira começava o dia com 40 viaturas e hoje, com o dobro de população são apenas 10 viaturas, o general irritou-se com a pergunta de um repórter sobre a carência de recursos materiais, e, antes de encerrar a entrevista, filosofou: O pouco é uma questão de subjetividade. Pode ser pouco para o senhor, muito para mim e nada para outro.
c) Uma delegacia não precisa de telefone, disse o delegado Edmilson Nunes, chefe da Polícia Civil no estado em visita a Feira de Santana, também em coletiva. Falando sobre a Delegacia de combate ao roubo de cargas, que tem meses na cidade mas não possui telefone, o delegado afirmou que bastam celulares na mão dos policiais. Obviamente o número do telefone destes policiais não pode ser divulgado publicamente. Obviamente também a vítima deste tipo de crime em geral é caminhoneiro, que não conhece a cidade, nem sequer sabe se existe uma delegacia especializada. Este cidadão, que ficou a pé, terá que dar um jeito de encontrar a delegacia. Se a empresa dona da carga, que está em outro estado, quiser falar com a delegacia, vai ficar difícil. Mas nada que um pouco de boa vontade e resignação não possam resolver.
d) A população deve colaborar com a polícia, fazendo denúncias. Essa idéia, sem dúvida, entra em contradição com a anterior. Mas foi outra contribuição do delegado na mesma entrevista. Para que se façam essas denúncias, o delegado sugere um interurbano para Salvador, para 71-3235-0000. Não é gratuito, porque segundo a secretaria de Segurança Pública, 85% das ligações estavam sendo trotes.
e) Os bandidos não colaboram. Não tem compreensão. Explicando que não era fácil colocar delegacias nos bairros mais populosos de Feira, Edmilson Nunes listou uma série de dificuldades burocráticas. “Não é da noite para o dia que podemos instalar uma unidade policial. Você tem que fazer um concurso para novos delegados, para novos agentes, para novos escrivões de polícia. Adquirir armas, munição, e... e... e... viaturas. E tudo isso tem que estar dentro do orçamento. Não pode fazer simplesmente a nomeação de um policial e aquele valor respectivo ao seu salário não estar dentro do orçamento daquele ano. Tanto que há uma previsão orçamentária para o ano de 2007, para novos concursos públicos na área de segurança pública, para que aí a gente possa agregar novos policiais na perspectiva de crescimento da instituição e mais qualidade nestas investigações”. A bandidagem, que é malvada e joga sujo, não respeita as dificuldades nem o calendário do nosso esforçado estado. Aproveitou-se e se danou a agir antes da execução orçamentária de 2007.

Publicado na Tribuna Feirense em 12/08/06

6.8.06

Candidatos que não têm nada a dizer

Eu ouvi mal ou surgiu no meio de tantas mudanças propostas para a propaganda eleitoral a idéia de proibir carro de som? Devo ter ouvido mal, porque as nossas ruas estão infestadas deles. Que bom se tivesse sido aprovada tal proibição! Quanto é insuportável ter que agüentar o dia inteiro rodar o carro de som anunciando o nome de um político que passou quatro anos desaparecido. De repente lá está seu nome, subindo e descendo a rua em alto volume e ficamos sabendo por um locutor, que ele trava uma batalha incessante por nós, em Salvador ou em Brasília. Deve ser por isso, por ele ter estado tão ocupado, que passamos os últimos quatro anos sem nem saber se estava vivo ou morto, pois nada disse e até a imprensa tem dificuldade de encontrá-lo. Deve ser por isso que não teve tempo nem de gravar uma mensagem de saudação aos eleitores para rodar no bendito carro de som.
Ou talvez tenha estado desaparecido ou nunca o vejamos se manifestar porque ele não tem mesmo o que dizer. A forma como as campanhas da maioria (ou quase a totalidade) dos candidatos é feita, demonstra isso.
No papel, onde os candidatos poderiam dizer o que pensam e se comprometer com algumas propostas, limitam-se a distribuir santinhos. No máximo, se encontra um calendário no verso. Olhamos para a carinha deles ali, emoldurada pelo nome e número. Só consta o nome do partido porque a lei tornou obrigatório. Quem é ele? O que propõe sobre os assuntos que preocupam o eleitor? Quem sabe? Será que tem mesmo uma proposta?
Como a campanha não se dá por idéias nem projetos, restam dois meios: a compra de votos e a lavagem cerebral. É preciso decorar o número. O nome não, o número. Decorar o número está acima de tudo. Nem importa muito saber quem é o dono do número. Se o eleitor associar demais o nome do candidato ao número, pode até ser que num momento de lucidez, no dia da eleição, se dê conta de que está votando num candidato que ele não sabe quem é e nem o que pensa. Não, o eleitor não vota em um nome, nem em um homem, nem em um conjunto de idéias. Ele vota num número.
Então, é carro de som o dia inteiro, o eleitor tem que dormir e acordar com aquele número na cabeça.
Para ajudar a fixar, nada melhor do que uma musiquinha. Olhando a letra delas, nota-se que qualquer uma serve para qualquer candidato. Não há nada de específico. Parece que os compositores de jingles têm um estoque na prateleira, esperando um interessado bater na porta:
– O que é que você tem aí? – quer saber o candidato.
– Olha, as músicas todas falam que o senhor é trabalhador, honesto e competente. Que vai lutar pela saúde, educação e mais emprego. Só muda o ritmo. Olha esse aqui – sugere o “artista”.
– Não, tá muito desanimado – decreta o candidato.
– E esse outro, em ritmo de forró?
– Não, o São João já passou.
– Então, eu vou lhe mostrar o melhor de todos. Tem vários candidatos interessados nele. Eu vou vender a quem der o melhor preço.
Depois de ouvir, o candidato concorda entusiasmado: - Ah, esse é o melhor mesmo. Eu pago.
– À vista, por favor – garante-se o compositor.

Publicado na Tribuna Feirense em 5 de agosto

De pedra a vidraça

Acostumado a cobrar e criticar, na condição de radialista, Carlos Geilson (46 anos, 28 de profissão) agora pode passar a ser cobrado e criticado. É que agora, sob a legenda do nanico PT do B – partido que tem em Feira de Santana o deputado estadual Humberto Cedraz – o radialista quer chegar à Assembléia Legislativa nas eleições de outubro.
Para isso, conta com a popularidade conquistada como radialista, mas atribui ao grupo político importância fundamental. “Estou entrando na política pelas mãos do prefeito José Ronaldo”, faz questão de enfatizar. Geilson conta com o apoio também do governador Paulo Souto (que foi radialista num passado remoto), mas mesmo assim, diz que se eleito não será mais um deputado governista para dizer amém na Assembléia.
Há mais de 20 anos – desde 1985 –Geilson está na Rádio Subaé AM, onde já passou por várias funções, ao ponto de sem querer já ter a emissora no sobrenome. “Me apresento como Carlos Geilson e as pessoas logo acrescentam: - Da Rádio Subaé?”.
Por dez anos, Geilson apresentou o programa Viva Feliz, no estilo popularesco-dona de casa. Quando a rádio perdeu Dilton Coutinho, que apresentava o Subaé Notícias e partiu para ter seu próprio programa na Rádio Sociedade, foi Geilson o escalado para enfrentar o ex-funcionário e agora concorrente, no programa jornalístico apresentado nas primeiras horas da manhã. O horário nobre do rádio aumentou a fama de Geilson e o aproximou mais dos políticos e da política, a ponto de levá-lo agora a disputar uma eleição pela primeira vez, já começando pela função de deputado estadual.

Muitos radialistas já se aventuraram na política e saindo-se mal, acabaram por prejudicar suas carreiras profissionais. O que lhe faz pensar que com você será diferente?

Eu não estou numa campanha calcado apenas em minha popularidade como radialista. Assim que fiz a opção, numa conversa com o prefeito José Ronaldo, que foi a primeira pessoa com quem discuti o assunto, e ele me deu o sinal verde, estou indo nas comunidades. Claro que o prefeito José Ronaldo tem outros candidatos. Numa cidade do porte de Feira de Santana, o prefeito tem que ter opções e não uma única via.
Em cada comunidade fazemos um palanque, onde a gente discute e se apresenta como político. Não estou calcado apenas no rádio. Tenho me cercado de lideranças, do apoio de vereadores e suplentes e de candidatos a vereador, presidentes de creche e associações de bairro.
Esse grupo me dá o suporte. Junto com o voto de opinião de quem me ouve há muitos anos no rádio, pela avaliação que fazemos bairro a bairro, vemos que o nosso nome surge como um nome de densidade eleitoral, que tem visibilidade. O voto de opinião, por meio do rádio, é importante mas não elege. É necessário o trabalho político de grupo, junto às lideranças.

Por que alguns profissionais não conseguem transformar popularidade em voto?

O rádio é importantíssimo, para popularizar. Mas não resulta em voto, tem que ser feito o trabalho. Tem que chegar na comunidade, conversar, a comunidade tem que lhe tocar. E não ficar simplesmente no rádio levando propostas, sem estar com o povo. O político tem que ir ao encontro do povo. O nome sozinho não elege ninguém.

O que pesou mais em sua decisão de candidatar-se?

Tinha recebido convites antes para me candidatar. Mas não me achava amadurecido, preparado intelectualmente, emocionalmente. Vou completar 30 anos de rádio. Acho que até pelo meu espírito irrequieto, estou sempre tentando algo mais na vida. Já não me contentava simplesmente em ser o radialista disk-joquei, quis ser professor (Geilson é formado em Letras pela UEFS e já deu aulas de literatura, o que hoje faz apenas ocasionalmente, a convite), quis ser jornalista. E agora político. Faz parte do meu espírito de vida, de ser uma pessoa que busca enfrentar os desafios. Quando se levantou a possibilidade de eu ser candidato houve quem dissesse “é um maluco, não vai pra canto nenhum”. Muitos que diziam isso hoje já reconhecem “realmente ele vai ter muito voto”.

Sua ligação maior com Ronaldo e Souto lhe afasta do senador ACM?

Política é grupo. Você não pode contentar grupo A, B e C. Você pode ter simpatia pela amplitude dos grupos que estão num projeto político. Mas todo mundo sabe que em qualquer partido tem político mais ligado a A, B ou C, o que é natural. Eu não diria que isso afasta. Mas estou mais vinculado ao grupo do governador Paulo Souto e do prefeito José Ronaldo. Não que eu tenha definido “eu sou do grupo de Paulo Souto”. É a própria ligação de amizade que define isso. Não fiz a opção de não ser ligado a ACM e ser ligado a Paulo Souto. É uma coisa que acontece espontaneamente, sem que eu declare. As pessoas observam. Se o senador Antonio Carlos Magalhães tem outros candidatos, é obvio que Paulo Souto também tem outras opções. Essas opções são várias, não apenas o meu nome. Como ACM tem várias opções também, de pessoas que recebem o seu trabalho político mais determinado. Agora lógico que o senador sabe que é uma família só, com suas divisões.

Que idéias pretende defender na Assembléia?

Eu estou muito vinculado ao trabalho associativo, comunitário. Vou levar adiante a bandeira do funcionário público e por isso tenho apoios bem definidos na Polícia Militar e na classe dos professores. Temos apoio de vários médicos e estamos com o compromisso de defender uma saúde de qualidade. Quero ser um representante da classe, da categoria dos radialistas, temos algumas idéias sobre este setor. Tenho ligação com o homem do campo, pois vim da roça e estou ligado ao homem do campo.

Deputado governista não diverge, não propõe. Só diz amém. Você tem o hábito de contestar, pela profissão. Como vai conciliar isso, se seu grupo estiver no poder?

Se Deus me der a graça da eleição, quem votar em mim vai saber que não serei mais um para dizer amém. Quem me conhece sabe que sou uma pessoa de posições bem claras e definidas. Tenho uma relação de amizade com o prefeito José Ronaldo, que todo mundo sabe. E nem por isso no programa se deixa de criticar o prefeito, o governador. Posso lhe dar um exemplo. Recentemente esteve no programa o jornalista Edson Borges (do jornal A Tarde) com uma matéria onde criticava duramente a Coelba. A empresa é nossa parceira comercial de muitos anos. Nem por isso a matéria deixou de ser veiculada. Por aí você vê. Eu sou extremamente fiel aos meus amigos. Não os abandono nas dificuldades. Mas isso não me faz ser subserviente. Nunca fui e nunca serei.

Eu também quero lhe citar um exemplo: em março, numa paralisação de professores por um dia, Eduardo Miranda entrou no ar criticando os salários pagos na Bahia. Em seguida você emendou um discurso em defesa dos professores, mas estendendo o problema para todo o Brasil, tirando o foco do estado da Bahia. É um exemplo de como a situação política condiciona a postura do comunicador?

Não. Eu faria isso, até por uma questão de consciência. Você acha que essa questão é só local? Se estivesse no meu lugar não faria um adendo, dizendo que isso não acontece só na Bahia, mas em todo o Brasil? Você não teria esse discernimento e essa visão além do problema regional?

Se uma autoridade atende a um pedido seu fortalece seu nome. Em caso de recusa, pelo fato de você ser candidato, você não acabaria enfraquecido como comunicador?

Graças a Deus tudo que temos reivindicado tem sido atendido. Então não posso reclamar. Isso tem me fortalecido, inegavelmente, e tem motivado ciúmes de outros políticos.

De que forma?

Eu prefiro não falar, porque na verdade sempre fiz pedidos no rádio para resolver os problemas e não vou parar. Só que antes ninguém se aborrecia e agora se aborrece, reclama com esse ou aquele secretário: “Pô, tudo que Carlos Geilson pede, você atende!” Mas o secretário sabe e o prefeito também, que isso não é de agora. Eu só estou continuando o meu trabalho no rádio. Não mudou nada. O que mudou foi fora da rádio.

Antes você era um repórter. Agora um candidato. O ouvinte não desconfia da sua isenção?

O ouvinte continua tendo o mesmo espaço que sempre teve. De me contestar, me apoiar, reivindicar, dizer o que pensa e sente. Continua do mesmo jeito. Eu sou um político que tem o respeito da esquerda. No meu programa falam Colbert, José Neto, as vezes divergimos, às vezes convergimos. O programa não mudou. A atuação política é fora do rádio. No rádio, sou um profissional da comunicação.

E os políticos, mudaram o tratamento, agora que você é concorrente?

Sem dúvida que alterou com alguns. Eu continuo na mesma. Não tenho ciúme de nenhum. O ciúme existe, mas garanto que não é da minha parte.

Você acha que os deputados feirenses fizeram o suficiente pela cidade?

Quem vai julgar é o povo de Feira de Santana.

Mas você é radialista e faz esses julgamentos o tempo todo...

Qualquer julgamento que eu fizer agora soa como julgamento político. Não vão levar para o campo do jornalista. Qualquer avaliação que eu faça, vai ficar implícito, ou explícito, para alguns, que estou opinando como político e não como um homem qualquer da comunidade.

PARECE FÁCIL, MAS NÃO É

Apesar da indiscutível vantagem que falar no ar todos os dias dá a um candidato, a história mostra que vida de radialista político em Feira de Santana não tem sido nada fácil. Até hoje nenhum conseguiu ser deputado, como almeja Geilson.
O jornalista Adilson Simas lista os que se candidataram sem sucesso à Câmara Municipal: Silverio Silva, Agnaldo Santos, José Silva, Francisco José, Antonio Sotero e Leguelé.
Adilson lembra que mesmo Chico Caipira, muito popular e muito bem votado quando se elegeu vereador em 1982, fracassou como candidato a deputado em 1986 e acabou não conseguindo a reeleição como vereador em 88. Neste ano, elegeu-se Roberto Rubens para a Câmara, mas também não conseguiu a reeleição.
Parece que fez certo o primeiro radialista que conseguiu se eleger, Dourival Oliveira, vereador no distante 1954. “Não se candidatou à reeleição”, conta Adilson.

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